segunda-feira, 13 de julho de 2015

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- Claire... Claire, você consegue me ouvir?
Minha cabeça estava meio zonza e eu não consegui enxergar as coisas claramente. Tudo embaçado. Mas eu reconhceria aquele jaleco branco de longe. Doutor Mendes!
Balancei positivamente a minha cabeça, e quando percebi, estava com o braço furado, e com aquela coisa na boca que me ajuda a respirar. Aquela que eu sempre esqueço o nome e chamo de máquina de respirar.
Doutor Mendes andava de um lado pro outro com a prancheta na mão, e do outro lado do consultório estavam os meus pais, chorando bastante.
Tirei a máquina de respirar de mim, e ai então pude sentir o doce e gostoso ar............ Do hospital.
- O que tá acontecendo?
Minha mãe mostrou um olhar de tristeza pra mim, e foi ai que eu percebi que uma das coisas que eu temia, poderiam estar acontecendo.
- Eu morri? Isso é tipo um sonho, tipo aquele filme Nosso Lar?
O médico que ainda estava com sua prancheta na mão soltou uma risadinha. E eu vi que meu pai havia expressado uma cara de "isso é um momento sério, eu não posso rir".
- Não Claire, você não está morta - Disse o doutor - Não ainda.
Já disse que o dr Mendes não é bom em expressar emoções?
- Como assim?
Minha mãe chorava mais ainda. E com esse choro bem exagerado, ela chegou perto da minha cama e pegou a minha mão esquerda que estava picada por uma agulha na minha veia.
- Filha... - Ela enxugou as lágrimas do rosto - Parece que a quimio não está mais dando certo.
- Eu não venci o "mau" né.
Ela fez que não com a cabeça.
- O que eu vou te falar agora, pode te causar um transtorno, e um grande susto Claire. Mas é melhor que você saiba antes de ser pega de surpresa.
- Mãe, o que o doutor ta falando?
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- Filha. Você só tem mais três semanas de vida.
Suas lagrimas começaram a cair novamente, e logo ela foi abraçada por meu pai que mesmo ruim estava tentando consola-la.
E como diz Maísa... Meu mundo caiu!
Eu não conseguia formar pensamentos concretos e nem lagrimas caíram do meu rosto na hora. Eu estava em choque, em transe, tentando engolir aquilo tudo que foi falado pra mim.
- Você teve uma crise hoje a noite. A mais grave. E desde o mês passado que aumentamos a dosagem dos seus medicamentos, o seu corpo não responde de forma positiva. E de acordo com os exames - Ele olha novamente aquela maldita prancheta - Você só tem esse tempo de vida. Sem medicamentos, sem agulhas, sem nenhum tratamento.
Meus pais olharam pra mim na espera de algum comentario meu. Mas a única coisa que foi capaz de sair da minha boca, foi um: "ok".
Depois disso, voltamos pra casa. Em silencio. Eu estava olhando pra janela com aquelas luzes se mexendo conforme a velocidade do carro, e pensava em tudo o que aconteceu comigo. Antes e depois do "mau" ter entrado na minha vida. Nas coisas que eu perdi, nas poucas coisas que eu ganhei, nos meus pais, e finalmente, em mim. Como seria daqui por diante? Duas semanas é muito pouco tempo pra tentar viver a vida de uma forma que não seja um desperdicio total. Todos esses anos da minha adolescencia foram um desperdicio total. Sem festas, sem baladas, e até hoje sem saber qual é o gosto de uma vodca. Sem fazer aquela viagem que meus pais prometeram me dar de 15 anos, e não me deram por conta de mais uma merda de complicação que fez com que os remédios mudassem, e mais furos no meu braço aparecessem.  Todos esses pensamentos iam e vinham como flashes de luz. Como as luzes da rua. A minha vida dali por diante seria um flashe de luz. As luzes da rua um dia se apagam.
Fui acordada daquele meu transe com meu pai abrindo a porta pra mim. "Brigado pai", foi a unica coisa que eu consegui dizer. Eu geralmente não sou uma menina timida de poucas palavras, mas aquele era um momento sério. Eram poucas e precisas palavras ali.
Entramos em casa e eu fui direto pro meu quarto. Eu vi a zona que estava ali. Meu cobertor jogado no chão, os remédios sem tampa e o telefone do hospital na mesa de cabeceira. É, pelo visto a situação foi foda e eu estava apagadinha quando isso aconteceu hein.
E logo ali na minha penteadeira, o meu diário aberto. Merda, leram o meu diário de 3 anos atrás. Justo na pior pagina, que dizia assim:
"...Eu só queria ter uma vida normal, como essas que eu vejo na tv. Aquele seriado skins parece ser foda demais, aquela menina... Não lembro o nome dela. Aquele cabelo meio marrom foda que eu precisei comprar uma peruca igual. Mas do que adianta eu ter uma peruca igual, se a vida não é igual? PFFFF, eu gosto de imaginar que ela não vai pra uma clinica ou morre, ou vai pra casa dos avós tipo naquele filme Cristiane F. Eu gosto de pensar que ela é incrivel e sempre vai ser assim.  Eu não pedi esse maldito cancer. E não pedi essa maldita proteção dos meus pais. Eu só queria ser normal e comemorar meus 15 anos de uma forma normal. Eu só queria ta sei lá, na disney tirando fotos com o mickey e naquela montanha russa do rock! É pedir demais? Sabe qual foi o meu presente de aniver? Mais um furo na veia! FELIZ 15 PRIMAVERAS!"
É... Eu tava bem revoltada nesse dia. Eu tenho meus motivos, ok? Esse seriado, por mais que seja foda, uns meses depois eu reparei, que eles são uns drogados sem causa. Eles não tem motivos realmente preocupantes pra poder se revoltar de uma forma tão grande. Eu tinha! E me revoltava? Não. Meus pais não deixavam.
- Filha - Escuto meu pai me chamar - desce aqui por favor.
Mais uma vez tirada do meu transe! Uma quase defunta precisa de um minimo de respeito né! Mas eu desci mesmo assim.
- Oi, digam. - Me sentei ao sofá de frente do que os meus pais estavam sentados.
- Claire.... Você tem sido forte o tempo todo. Tem aguentado tudo isso de uma forma bonita de se ver. Você pode pensar que a gente não sabe a dor que você passa. Mas eu te digo, é pior a nossa como pais.
Já disse que eu me sinto muito mal por ver a minha mãe chorando?
- Então filha - Ela enxugou as lagrimas - Achamos que esse seu tempo de vida tem que ter algum significado pra você.
- Vocês leram o meu diario de 3 anos atras, pra que isso?! Eu to bem ok? Vamos passar esse tempo juntos, como a gente sempre fez! Eu amo vocês, as pessoas mais importantes pra mim.
Ok, eu confesso que caíram umas lagrimas do meu olho. Mas foram poucas.
Todos fitaram o chão. Foi até esquisito essa parte mano, tipo... Bem esquisito.
- Como sua mãe estava falando... E sim, nós lemos o seu diário... Decidimos que chegou a hora de você ser apenas uma adolescente normal. Com uma vida normal regada a festas, raves, e, por favor! Poucas drogas! Não quero o corpo da minha filha sendo cremado cheio de substancia esquisita no corpo.
Eu tava ouvindo aquilo mesmo? Desde quando meus pais viraram liberais?!
- Desde quando a gente virou liberal, certeza que é isso que tu deves tá pensando! Eu e sua mãe viramos liberais, desde quando vimos que sua vida foi regrada e vivida pelo cancer. Digo, pelo "mau".
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- Então, vamos te dar o dinheiro da poupança da sua faculdade, já que.... Você não vai fazer - Dessa vez foi a minha mãe que me deixou surpresa.
- Calma então. Quer dizer que... Do nada vocês após terem lido o meu diário, e depois do que aconteceu hoje a noite, querem me livrar disso tudo?
- Você não sempre sonhou em fazer uma eurotrip? É assim que se diz?
- Eu só acho que isso ta sendo precoce demais! Porra eu acabei de descobrir que vou morrer daqui há duas semanas!
- Não quer? Então ok!
Meu pai se levantou e minha mãe foi atras. Me deram um beijo de boa noite.
Boa noite? Que noite foi essa! Tipo, não dá pra dizer como eu me sinto sobre isso! Eu geralmente não expresso muito bem meus sentimentos, mas afirmo que hoje tinha que ser uma coisa triste. Tipo aqueles filmes que ainda tem uma trilha sonora de fundo, pra mostrar de todas as formas, a dor que cada um sente.
Mas não foi isso. E eu ainda ganhei uma eurotrip! Será que essa é uma chance de eu realmente ser feliz?

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